O que pensa a sociedade sobre a violência contra as mulheres
Violência contra a mulher é o problema que mais preocupa homens e mulheres

Acaba de ser concluída pesquisa inédita sobre violência contra a mulher encomendada pelo Instituto Patrícia Galvão ao Ibope Opinião, com apoio da Fundação Ford. Realizada em setembro de 2004, a pesquisa trabalhou com uma mostra representativa da população adulta brasileira.

Foram realizadas 2.002 entrevistas pessoais em todos os estados brasileiros, capitais e regiões metropolitanas. Cidades menores foram selecionadas probabilisticamente, dentro da proporcionalidade por tamanho de município. A margem de erro máximo, para o total da amostra, é de 2,2 pontos percentuais para mais ou para menos. O intervalo de confiança estimado é de 95%.

Principais resultados

A partir de uma lista de problemas, homens e mulheres reconhecem que a violência contra a mulher, tanto dentro como fora de casa, é o problema que mais preocupa.

· 30% apontam a violência contra a mulher dentro e fora de casa em primeiro lugar, na frente de uma série de outros problemas, como câncer de mama e de útero (17%) e a Aids (10%). Os indicadores de preocupação com a questão de violência não mostram diferenças entre os sexos, tampouco na maioria das variáveis estudadas. Isto é, trata-se de um problema amplamente difundido no conjunto da sociedade. Mas algumas diferenças são importantes: a preocupação com a violência doméstica (dentro de casa) é mais significativa nas regiões Norte e Centro-Oeste, chegando a 62% das respostas.

§ 91% dos brasileiros consideram muito grave o fato de mulheres serem agredidas por companheiros e maridos. As mulheres são mais enfáticas (94%), mas, ainda assim, 88% dos homens concordam com a alta gravidade do problema.

§ A percepção da gravidade da violência contra a mulher se confirma quando 90% dos brasileiros acham que o agressor deveria sofrer um processo e ser encaminhado para uma reeducação. O contraste entre a quase unanimidade destas opiniões e a realidade concreta na vida das mulheres é gritante. São poucos os casos que chegam a processo e escassas as instituições que lidam com reeducação do agressor.

§ A idéia de que a mulher deve agüentar agressões em nome da estabilidade familiar é claramente rejeitada pelos entrevistados (86%), assim como o chavão em relação ao agressor, “ele bate, mas ruim com ele, pior sem ele”, que é rejeitado por 80% dos entrevistados.

§ Com relação ao chavão conformista “ele bate, mas ruim com ele, pior sem ele”, há diferenças significativas e culturalmente relevantes: as mulheres (83%) tendem a rejeitar mais do que os homens (76%); os mais jovens (83%) mais do que os mais velhos (68%).

§ Em uma pergunta que pede um posicionamento mais próximo daquilo que o entrevistado pensa, 82% respondem que “não existe nenhuma situação que justifique a agressão do homem a sua mulher”. Em contrapartida, 16% (a maioria homens) conseguem imaginar situações em que há essa possibilidade. Observa-se que 19% dos homens admitem a agressão, assim como 13% das mulheres.

§ Homens e mulheres fazem o mesmo diagnóstico: 81% dos entrevistados apontam o uso de bebidas como o fator que mais provoca violência contra a mulher; em segundo lugar, mencionado por 63% de entrevistados, vêm as situações de ciúmes em relação à companheira ou mulher.

§ Menos importantes, mas citadas por três em cada dez entrevistados, vêm as questões econômicas: desemprego (37%) e problemas com dinheiro (31%). 13% citam a eventualidade de falta de comida em casa e 14% dificuldade no trabalho.

§ É opinião geral, em todos os segmentos da amostra, que os que mais perdem nas situações de violência doméstica são os filhos do casal: assim pensam 63% dos entrevistados. 14% das mulheres dizem que elas perdem mais e 16% dos homens se reconhecem como os maiores perdedores. O que estes números sugerem é que todos perdem quando há violência na casa.Trata-se de um flagelo e uma epidemia que atinge a todos.

Veja mais informações sobre esta pesquisa

Realização: Fundação Perseu Abramo

Uma em cada cinco brasileiras declara espontaneamente já ter sofrido algum tipo de violência por parte de um homem.
A cada 15 segundos uma mulher é espancada por um homem no Brasil.

Comentários sobre violência contra a mulher extraídos da análise realizada pelo Núcleo de Opinião Pública da Fundação Perseu Abramo. Acesse a íntegra com gráficos e tabelas em http://www2.fpa.org.br/portal/modules/news/index.php?storytopic=253

Cerca de uma em cada cinco brasileiras (19%) declara espontaneamente ter sofrido algum tipo de violência por parte de algum homem

Um terço das mulheres (33%) admite já ter sido vítima, em algum momento de sua vida, de alguma forma de violência física (24% de ameaças com armas ao cerceamento do direito de ir e vir, de 22% de agressões propriamente ditas e 13% de estupro conjugal ou abuso).

27% sofreram violências psíquicas e 11% afirmam já ter sofrido assédio sexual. Um pouco mais da metade das mulheres brasileiras declara nunca ter sofrido qualquer tipo de violência por parte de algum homem (57%).

Tipos de agressão

Dentre as formas de violência mais comuns destacam-se a agressão física mais branda, sob a forma de tapas e empurrões, sofrida por 20% das mulheres; a violência psíquica de xingamentos, com ofensa à conduta moral da mulher, vivida por 18%, e a ameaça através de coisas quebradas, roupas rasgadas, objetos atirados e outras formas indiretas de agressão, vivida por 15%.
12% declaram ter sofrido a ameaça de espancamento a si próprias e aos filhos e também 12% já vivenciou a violência psíquica do desrespeito e desqualificação constantes ao seu trabalho, dentro ou fora de casa.
Espancamento com cortes, marcas ou fraturas já ocorreu a 11% das mulheres, mesma taxa de ocorrência de relações sexuais forçadas (em sua maioria, o estupro conjugal, inexistente na legislação penal brasileira), de assédios sexuais (10% dos quais envolvendo abuso de poder), e críticas sistemáticas à atuação como mãe (18%, considerando-se apenas as mulheres que têm ou tiveram filhos).
9% das mulheres já ficaram trancadas em casa, impedidas de sair ou trabalhar; 8% já foram ameaçadas por armas de fogo e 6% sofreram abuso, forçadas a práticas sexuais que não lhes agradavam.

A projeção da taxa de espancamento (11%) para o universo investigado (61,5 milhões) indica que pelo menos 6,8 milhões, dentre as brasileiras vivas, já foram espancadas ao menos uma vez. Considerando-se que entre as que admitiram ter sido espancadas, 31% declararam que a última vez em que isso ocorreu foi no período dos 12 meses anteriores, projeta-se cerca de, no mínimo, 2,1 milhões de mulheres espancadas por ano no país (ou em 2001, pois não se sabe se estariam aumentando ou diminuindo), 175 mil/mês, 5,8 mil/dia, 243/hora ou 4/minuto – uma a cada 15 segundos.

Freqüência e duraçãoEntre as mulheres que já sofreram espancamento, 1/3 (32%) afirma que isso só aconteceu uma vez, enquanto outras 20% diz ter ocorrido 2 ou 3 vezes. A declaração de espancamento por mais de 10 ou várias vezes é comum a 11% das mulheres que já passaram por isso, além de 15% que não determinam a quantidade, mas o tempo que ficaram expostas a esse tipo de violência. Há mulheres que sofrem ou sofreram espancamentos por mais de 10 anos, ou mesmo durante toda a vida (4%, ambas).

Quem são os agressoresA responsabilidade do marido ou parceiro como principal agressor varia entre 53% (ameaça à integridade física com armas) e 70% (quebradeira) das ocorrências de violência em qualquer das modalidades investigadas, excetuando-se o assédio. Outros agressores comumente citados são o ex-marido, o ex-companheiro e o ex-namorado, que somados ao marido ou parceiro constituem sólida maioria em todos os casos.

Pedido de ajudaEm quase todos os casos de violência, mais da metade das mulheres não pede ajuda. Somente em casos considerados mais graves como ameaças com armas de fogo e espancamento com marcas, cortes ou fraturas, pouco mais da metade das vítimas (55% e 53%, respectivamente) recorrem a alguém para ajudá-las.
O pedido de ajuda perante ameaças de espancamento à própria mulher ou aos filhos; tapas e empurrões e xingamentos e agressões verbais ocorre em pouco menos da metade dos casos (46%, 44% e 43%, respectivamente).
Cerca de pouco mais de um terço das mulheres pediram ajuda quando vítimas de impedimento de sair, sendo trancadas em casa; quebra-quebra em casa; assédio sexual e críticas sistemáticas à atuação como mãe. Nas demais situações de violência o pedido de ajuda é inferior a 30%.
Em todos os casos de violência, o pedido de ajuda recai principalmente sobre outra mulher da família da vítima – mãe ou irmã, ou a alguma amiga próxima.

DenúnciasOs casos de denúncia pública são bem mais raros, ocorrendo principalmente diante de ameaça à integridade física por armas de fogo (31%), espancamento com marcas, fraturas ou cortes (21%) e ameaças de espancamento à própria mulher ou aos filhos (19%).

Causas e fatoresO ciúme desponta como a principal causa aparente da violência, assim como o alcoolismo ou estar alcoolizado no momento da agressão (mencionadas por 21%, ambas), razões que se destacam, em respostas espontâneas sobre o que acreditam ter causado a violência sofrida, superando em larga escala as demais menções.

Políticas públicasComo proposta de combate à violência contra a mulher, a criação de abrigos para mulheres e seus filhos, vítimas de violência doméstica, é a que merece maior adesão (43% na primeira resposta, 74% na soma de 3 menções), dentre oito ações de políticas públicas sugeridas.
Criação de Delegacias Especializadas no atendimento a mulheres vítimas de violência (21%) aparece como segunda principal medida de combate à violência contra a mulher, seguida por um serviço telefônico gratuito – SOS Mulher e um serviço de atendimento psicológico para as mulheres vítimas de violência (propostas empatadas tecnicamente com 13% e 12%, na ordem).
Quando aceitas como respostas múltiplas, o ranking é semelhante, com taxas evidentemente mais altas (74%, 60%, 44% e 51%, respectivamente).

Durante o ano 2001 o Núcleo de Opinião Pública da Fundação Perseu Abramo estudou o universo feminino e formulou 125 perguntas, aproximadamente, para uma pesquisa nacional inédita sobre mulheres com uma amostra de 2.502 entrevistas pessoais e domiciliares, estratificadas em cotas de idade e peso geográfico por natureza e porte do município, segundo dados da Contagem Populacional do IBGE/1996 e Censo IBGE 2000. O NOP perguntou às mulheres de 15 anos ou mais, residentes em 187 municípios de 24 estados das 5 macrorregiões brasileiras, entre os dias 06 e 11 de outubro, a respeito de temas como saúde, trabalho, sexualidade, violência, educação, trabalho doméstico, cultura política e lazer.

Fonte: Fundação Perseu Abramo. Acesse a íntegra com gráficos e tabelas em http://www2.fpa.org.br/portal
/modules/news/index.php?storytopic=253

Violência Contra a Mulher e Saúde no Brasil – Estudo Multipaíses da OMS sobre Saúde da Mulher e Violência Doméstica

Realização: Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, em parceria com duas organizações da sociedade civil: Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, de São Paulo, e SOS Corpo – Gênero e Cidadania, de Pernambuco, além de pesquisadores da Faculdade de Saúde Pública da USP e do Núcleo de Saúde Pública da Universidade de Pernambuco.

Realizada entre 2000 e início de 2001, a pesquisa apresenta dados sobre a ocorrência da violência, o impacto na saúde das mulheres e crianças, lesões decorrentes da violência, violência durante a gravidez, busca de ajuda, ajuda institucional, saída de casa e razões para ficar ao lado do agressor.

A pesquisa foi realizada simultaneamente em 8 países, sob a coordenação da OMS (Organização Mundial da Saúde). Em todos esses estudos foram pesquisadas uma grande cidade e uma região de características rurais.

· 27% das mulheres na cidade de São Paulo e 34% na Zona da Mata pernambucana relataram algum episódio de violência física cometida por parceiro ou ex-parceiro,

· 10% das mulheres em São Paulo e 14% na Zona da Mata disseram já haver sido:

· forçadas fisicamente a ter relações sexuais quando não queriam, ou

· forçadas a práticas sexuais por medo do que o parceiro pudesse fazer, ou

· forçadas a uma prática sexual degradante ou humilhante.

· A violência física e/ou sexual cometida alguma vez na vida pelo parceiro foi relatada por 29% das mulheres na cidade de São Paulo e 37% na Zona da Mata em Pernambuco.


Impacto da violência na saúde das mulheres e crianças

· As mulheres que relataram violência declararam com maior freqüência o uso diário de álcool e problemas relacionados à bebida nos últimos 12 meses.

· Os filhos de 5 a 12 anos de mulheres que referiram violência apresentam mais problemas, como pesadelos, chupar dedo, urinar na cama, ser tímido ou agressivo.

· Na cidade de São Paulo, as mães que declararam violência relataram maior repetência escolar de seus filhos de 5 a 12 anos; na Zona da Mata, maior abandono da escola.


Lesões decorrentes da violência

· 11% em São Paulo e 13% na Zona da Mata relataram haver sofrido lesões, tais como cortes, perfurações, mordidas, contusões, esfolamentos, fraturas, dentes quebrados, entre outras.

· Dentre as mulheres que relataram lesões, 36% ficaram tão machucadas que necessitaram assistência médica. Destas mulheres, 22% em São Paulo disseram haver passado uma noite no hospital devido ao trauma físico e 20% na Zona da Mata.

Violência durante a gravidez
· 8% na cidade de São Paulo e 11% na Zona da Mata relataram violência física durante a gravidez. Dentre estas, 29% das mulheres em São Paulo e 38% na Zona da Mata contam que receberam “socos ou pontapés na barriga durante a gravidez”.

· Em São Paulo, entre as mulheres que relataram violência física e sexual, 28% fizeram um aborto. Entre as que não relataram violência, 9% recorreram à prática do aborto. Na Zona da Mata, entre as mulheres que relataram violência física e sexual, 8% realizaram ao menos um aborto, enquanto entre as que não relataram violência o índice é de 3%. Essas diferenças foram estatisticamente significativas.

Busca de ajuda
· 22% das mulheres em São Paulo e 24% na Zona da Mata nunca haviam relatado a violência a ninguém; para estas, a pesquisa foi a primeira oportunidade para o relato.

Tiveram que sair de casa

· Quatro entre dez das mulheres que relataram violência na cidade de São Paulo (41%) tiveram que sair de casa pelo menos uma vez por causa das agressões, enquanto na Zona da Mata mais de cinco em cada dez (52%) tiveram que sair de casa pela mesma razão.

Razões para ficar
· Quando perguntada sobre os motivos para continuar na relação apesar da violência, a resposta mais freqüente foi que “perdoou o parceiro” (31% na Zona da Mata e 32% na cidade de São Paulo), seguida de “não queria deixar as crianças” (29% na Zona da Mata e 25% em São Paulo) e, em terceiro lugar, o “amor pelo parceiro” (23% em São Paulo e 24% na Zona da Mata).

Violência cometida por outros agressores
· A violência física sofrida após os 15 anos e que foi cometida por outro agressor que não o parceiro foi referida por 21% das mulheres em São Paulo e 13% na Zona da Mata.

· Relataram violência sexual após os 15 anos 7% das mulheres em São Paulo e 5% na Zona da Mata.

· A violência sexual antes dos 15 anos foi relatada por 12% das mulheres em São Paulo e 9% na Zona da Mata. Este dado foi colhido anonimamente, através do preenchimento de uma cédula

Leia o release de divulgação da pesquisa em http://www.agende.org.br/oms/FolhetoViolência-2111021.htm

Mais informações sobre a pesquisa podem ser obtidas com as integrantes do Grupo de pesquisa na linha Violência e Gênero das práticas de saúde Departamento de Medicina Preventiva / Faculdade de Medicina da USP: Profa. Lilia Blima Schraiber, Profa. Ana Flavia P.L. D’Oliveira ou Profa. Marica Thereza C. Falcão (11) 3066 7085 / 3066 7094
liliabli@usp.brEste endereço de e-mail está protegido contra SpamBots. Você precisa ter o JavaScript habilitado para vê-lo.

 

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