Há 20 anos, o governo australiano teve o insight de posicionar a cultura como um importante ativo econômico para o país. Hoje, a Austrália exporta este know how para países em desenvolvimento que desejam ampliar seu PIB com a implementação de negócios sustentáveis na cadeia cultural. Por si só, a história dessa nova economia alça a Austrália ao topo, no entanto, quando falamos de economia criativa é da experiência inglesa, ancorada pelo então primeiro-ministro Tony Blair, que lembramos. Ao contrário do australiano, o modelo de Blair buscava, nos signos intangíveis, a competitividade para a economia, o que fez com que os britânicos passassem da exportação de carvão, no século 19, para a exportação de obras de arte, como as do artista plástico Damien Hirst, no século 21.

No Brasil, o conceito ainda engatinha, em busca de um modelo que se adapte a seu ambiente cultural. Também enfrenta a barreira da quebra de paradigmas com relação à crença na viabilidade econômica da cultura. Ainda assim, dados do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística dão conta de que, em 2007, o setor foi responsável por movimentar cerca de R$97,5 bilhões, o que representaria, aproximadamente, 4% do PIB do País.

De olho no potencial da cultura tanto para o desenvolvimento socioeconômico quanto para a construção da imagem positiva do Brasil no exterior, o Ministério da Cultura criou a Secretaria  da Economia Criativa, dirigida pela socióloga Cláudia Leitão. “Havia uma necessidade de institucionalização da área. O Brasil precisa construir os próprios paradigmas ao invés de copiar modelos. A expressão economia criativa tem o conceito em construção e ainda não temos um marco conceitual. Esta economia cresce de 6 a 10% no PIB de países desenvolvidos e em desenvolvimento, com destaque para os da Ásia e do Oriente Médio, segundo a Unctad – Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento. Mas apesar da abundância de talentos criativos, a maioria dos países tem potencial criativo subutilizado”, explica Leitão.

Segundo a secretária, o intercâmbio com outros setores é de suma importância para o desenvolvimento de um modelo criativo bem-sucedido. “A Secretaria nasce transversal e quer dialogar com os ministérios da Esplanada. Precisamos conversar sobre previdência, marcos regulatórios e formação profissional, entre outros temas. Essa nova economia denota uma generosidade, uma volta ao escambo simbólico; há uma ligação com a economia solidária”, diz Leitão.

Do outro lado da ponta, Piatã Stoklos, da Vice Presidência de Marca, Marketing, Comunicação e Interatividade do Santander, reverbera o desejo do banco de atuar junto à sociedade para o fortalecimento de uma economia baseada na cultura. “Estamos inquietos com a economia criativa e, hoje, temos mais questionamentos do que respostas. Adotamos o conceito como linha de atuação depois de pensar sobre o que uma instituição financeira poderia fazer em relação ao mercado cultural que fosse diferente de conceder patrocínio. Buscamos novas ideias, pela via da cultura e das artes como viés para trabalhar a economia criativa, e resolvemos agregar a isso o conhecimento do banco sobre desenvolvimento de plano de negócios e sustentabilidade. Entendemos que há uma necessidade de mudar a lógica estabelecida que trabalha com projetos culturais e não com empreendimentos culturais, com negócios culturais”, conta Stoklos.

A economista e autora do livro Economia da cultura e desenvolvimento sustentável – O caleidoscópio da cultura, Ana Carla Fonseca, lembra que a globalização igualou tecnologias e ferramentas, criando a necessidade da busca por elementos novos que diferenciem os países. “Vivemos em um mundo globalizado, em termos de bens e serviços, que exige diferenciação. Capital e tecnologia, hoje, são ativos muito facilmente transferíveis entre os países, enquanto a criatividade das pessoas se tornou um grande diferencial. A economia criativa gera novos olhares, novos modelos de negócios, e alguns países já perceberam isso. Segundo dados da ONU, 11% do PIB dos Estados Unidos vem da economia criativa”, argumenta.

Confira os obstáculos ao desenvolvimento da economia criativa, segundo Cláudia Leitão:
•    Ausência de pesquisas.
•    Baixa disponibilidade de recursos financeiros.
•    Baixo investimento em capacitação dos agentes atuantes na cadeia produtiva destas indústrias.
•    Pouca infraestrutura no que se refere à distribuição e difusão de bens e serviços.

Acesso pergunta: o que você acha da proposta de passar a tratar o projeto cultural como empreendimento cultural?

Priscila Fernandes / blog Acesso

Leave a Comment