A SAGA DO MONSTRO SOUZA

 

 

 

**O Monstro Souza"Por Flávio Reis

Prestes a celebrar sua mais ridícula e ao mesmo tempo elucidativa invenção, o mito da fundação francesa, a cidade de São Luís ganhou no final do ano passado a primeira homenagem digna deste nome. Nada de “ó minha cidade” e boferagens do tipo, que certamente encherão ouvidos e olhos em 2012, mas sátira e crítica inteligente, ambas sempre tão ausentes em nossa insossa cultura do elogio. São Luís, Atenas Brasileira, cidade dos poetas, do casario colonial português, das belezas naturais, é vista na contramão no ótimo O Monstro Souza, o auto-intitulado “romance festifud” de Bruno Azevêdo e Gabriel Girnos. Misto de prosa e histórias em quadrinhos, entremeado por notícias de jornal, trechos de locuções de rádio e de programas de televisão, desenhos delirantes, fotografias, montagem, uma elaborada composição gráfica com todo tipo de loucura capaz de sugerir a sociabilidade grotesca que se gestou na Ilha.

O livro escancara a sujeira, os fedores, a violência e a enorme putaria encontrados por entre seus becos, ruas e praças, nos casarios velhos e abandonados. Foi se escrevendo, mais do que propriamente sendo escrito, durante dez anos, com participações de todos os lados, trabalho promíscuo que resultou numa narrativa pornográfica e violenta com inequívoco fundo de crônica da vida cotidiana. Gabriel Girnos dá a senha para compreender a dinâmica: “esse livro é fundamentalmente resultado de um diálogo: um longo, trabalhoso e divertido papo de Bruno com um monte de pessoas”. O texto é falado, a gramática se submete ao som, que fura a escrita de várias maneiras. Antes de ser lançado já havia se tornado lenda em certos círculos, entre a rapaziada mais ligada e criativa que circula por aí. Ganhou concursos literários locais, teve promessa de sair pela Editora Conrad, de São Paulo, quando ainda era do Rogério de Campos, sem dúvida seu melhor lugar, mas acabou saindo mesmo pela Pitomba, mais uma das criações de Bruno, com o apoio final do próprio Souza.

Enquanto isso, o texto era constantemente modificado, novas histórias, novos desenhos e personagens. Uma coisa viva, com traços de geração, atravessada pela literatura dos HQ, a linguagem anárquica da internet, os jogos de RPG, o escracho das notícias populares, gírias, tudo misturado a ingredientes de outros tempos, mas que permanecem marcados no cotidiano, extraídos da leitura de escritores regionais, historiadores, curiosidades, expressões populares, lendas e muita sátira corrosiva, de A a Z, arrematada no glossário constante do apêndice (só ele já vale as vinte pilas que custam o livro). A armadura geral é dada pelo espaço urbano, pela sociabilidade do grotesco que nele se gestou. São Luís, a cidade dos azulejos, é exposta através de um mosaico anárquico apaixonado, brutal e despudorado. Parodiando o poeta, poderíamos dizer: “o monstro está na cidade e a cidade está no monstro”.

À primeira vista, a história parece pura porralouquice em torno de um cachorro-quente da conhecida Barraca do Souza que, pedido e não comido, vê se concretizar o maior medo de qualquer “Souza”: o de “esfriar fora de um estômago”. Jogado fora inteiro, vira então um monstro, “um rotidóg de um metro e oitenta com trinta centímetros de pau exposto”, e se transforma num serial killer, totalmente viciado em “escavar entranhas” e comer pedaços de Souzas já ingeridos. Para ele, “nada se comparava a uma boa ervilha ou milho verde embebido em sangue, nada batia mais do que um Souza saído das entranhas de alguém”.

Toda a aventura se passa na cidade velha, na área tombada como Patrimônio da Humanidade, a Praia Grande e adjacências, a menina suja e maltrapilha do turismo local, um espaço que Bruno conhece bem, pois entre as várias atividades que exerceu em seus parcos trinta e um anos está a de guia turístico. Aqui, ele se vinga do trololó vendido aos turistas e mete a mão na massa, ou melhor, na merda, com total desfaçatez. O campo é o subterrâneo, a vida noturna que se desenrola entre as putas, travecos, michês, viciados, vagabundos, ladrões, bêbados, que vivem ou operam no centro velho, também ridicularmente conhecido como área do (Projeto) Reviver. Cenário escuro e perigoso, tal como nos desenhos de Gabriel Girnos, bem longe da maravilha sugerida pelas fotografias de cartão postal e imagens publicitárias.

Na Pedro II, antiga Avenida Maranhense, onde estão o Palácio dos Leões, a Prefeitura, a Igreja da Sé e o Fórum, “o boquete custa quinze reais e pode ser executado ali mesmo, na calçada da Sé ou no João Goulart. A trepada é mais salgada e tem que ser na escadaria atrás do Bradesco ou num dos motéis da área, que cobram 10 reais por três horas”. O mapa da prostituição de então destacava: “os pontos da Pedro II, Itaqui e Portinho abrigavam a prostituição suja, das pernas cabeludas e caronas eventuais, do uisquinho pro capitão; o Colonial Shopping era mais uma zona adolescente, onde o assessor do deputado ia pegar o aluno do Liceu prum chopinho; as faculdades do outro lado da ponte eram a ressurreição das velhas casas de cômodos do Desterro, a luz vermelha em meio à Renascença, a semeadura dos vinhais da Atenas: ali a Criatura nem pisou”. Ficou mesmo na antiga porta de entrada da cidade: “tendo o Anil e o Bacanga por pernas que fossem, e o braço de mar como uma cintura de respiração profunda, a Praia Grande era uma boceta exposta e fedendo a cancros”.

[O Estado do Maranhão: Chuva Deixa São Luís às Escuras – não fossem os transtornos causados pela escuridão, São Luís parecia até estar em festa com tanto estouro nos isoladores de energia, dando a impressão de estar havendo uma queima de fogos]

[Coluna do Sarney: Salve 2001! Viva o Povo Maranhense! – O Maranhão está num dos momentos mais altos de sua história… Todo o povo com direito à assistência médica, uma governadora que tem o respeito de toda a Nação, honestidade, transparência, progresso]

[Jornal Pequeno: Carnaval Sangrento Deixa Saldo de Sete Assassinatos – Vila Operária, Coroadinho, Bom Jesus, Cidade Operária, Rosário, Ceprama, Sacavém]

Uma das características mais antigas de São Luís é a onipresença da sujeira e do fedor. “Como o resto da cidade, o centro histórico era imundo. A população não tinha nenhum pudor em jogar qualquer merda no chão. Os esgotos da Praiagrande sopravam um vapor quente com essência de baratas e ratos transitavam livremente nas calçadas. Os sobrados eram banheiros e lixeiros públicos; cães, gatos e pessoas cagavam nas calçadas e outros cães, gatos e pessoas pisavam nessas merdas e as espalhavam por aí”. Na Deodoro, praça central, “a biblioteca fede a mijo, as paradas de ônibus fedem a mijo, o liceu fede a mijo, o pantheon fede a mijo, o night day fede a mijo, o banheiro público fede a mijo. Venha mijar na Deodoro!”. Do outro lado da ponte não era diferente. “Também o Renascença (um manguezal aterrado que insistia em transpirar pelo asfalto) e toda a periferia tinham um cheiro de esgoto perturbador. Era uma ilha em putrefação”. Pontos turísticos mais recentes, como a Lagoa da Jansen, são ainda mais fedorentos, pois é um “enorme poço de merda entre os bairros da Ponta da Areia e do Renascença, em volta do qual se fez um parque para assaltantes”.

O Monstro (ou a Criatura, como é muitas vezes designado pelos autores) se deu bem em meio a essa sujeira, passava quase despercebido e, com toda putaria à volta, “virou o loverbói da elite, atendendo em móteis chiques pagos pelo erário público”. Fez o maior sucesso no jogo pesado da praça, onde vez por outra aparecia uma novidade e a sua era o sexo feito “com os prazeres da carne, do molho, da couve, da maionese e das calcinhas arrancadas com força”. “Descobriu-se um cachorroquente machista e sexista”, que emitia apenas um grunhido característico quando estava trepando: Clovs! Clovs! Clovs!

O mercado ficou agitado. “Vai ser normal ou trezentos e sessenta? / Que diabo é trezentos e sessenta? / Relaxa… na hora tu vai saber. É o que tem saído mais. Nem é daqui do Maranhão”. É melhor recorrer ao glossário: “Trezentos e sessenta: cento e vinte duplo mortal carpado”. “Cento e vinte (120): técnica sexual que consiste em um 69 + uma garrafa de 51 (levemente cheia e entreaberta) enfiada no cu”. “É o mesmo preço? / Não, trezentos e sessenta é mais caro. É só ele que faz”.

O certo é que o Monstro, a Criatura cujo aspecto “não passava de um pão gigantesco empalado por uma salsicha” vai comer meio mundo, literalmente, vivendo pelos cortiços, se esgueirando pelas ruelas e esgotos, “dividia o tempo entre o sexo, o sangue e o ópio”. Não recusava clientes, mas gostava mesmo de grunhir era pra Gertrudes, que também fazia ponto e “era uma figura bisonha: altíssima, tinha os peitos grandes, caídos; bunda murcha, boca de bruxa velha recheada de dentes entremelados e a cara tão chula quanto este texto”. Com ela fumou muita merla, cheirou pó, “também viagra, ácidos, psicotrópicos e todo tipo de barato foi, no mínimo, experimentado”. Desde que chegou à cidade, Gertrudes só conheceu o mundo do sexo. “Sabia o mais e o menos, mas nunca entendeu o vezes e o novisfóra. Trepar era mais simples. Uma trepada = comida por dois dias; dez trepadas = quartinho que ocupava no motel. Quantas trepadas seria o tique do férribôt? E o ingresso do espaço aberto?” A trepada funcionava como mediação universal, mercadoria principal. Quem sacou tudo foi Ribamarx (nota: para maiores informações sobre este autor fundamental não deixe de conferir a imperdível Revista Pitomba, lançada recentemente, número indefinido, ano 2011. Quadro “Intelectuais Maranhenses” – por Bruno Azevedo).

* *Flávio Reis é professor da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Publicou os livros “Grupos Políticos e Estrutura Oligárquica no Maranhão” e “Cenas Marginais”.

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